TRÊS CHINAS NAS OLIMPÍADAS? HONG KONG E TAIPEI COMPETEM EM TÓQUIO

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Quem acompanha de perto as Olimpíadas de Tóquio provavelmente reparou que equipes de duas cidades diferentes na China se enfrentaram em uma partida de badminton. A China tem praticamente três concorrentes no quadro de medalhas: a própria China, Hong Kong e Taipei.

Mas é justo a potência asiática ter três times nas Olimpíadas? O que a China, que reprime manifestações por independência desses territórios, acha disso?

Contexto histórico

Para entender a questão de termos três “Chinas” nos Jogos Olímpicos, primeiro precisamos entender o contexto geopolítico da região.

  • Hong Kong

A geopolítica de Hong Kong remonta ao século 19, quando o mundo estava passando pela Revolução Industrial, com a Inglaterra no centro do avanço. A população da Europa não era suficiente para absorver esse impulso tecnológico inglês, então o país precisava ampliar seus mercados.

Como a Inglaterra não conseguiu seduzir os chineses para que abrissem os portos do país ao comércio britânico, os britânicos começam a contrabandear o ópio no território chinês, dando início a duas Guerras do Ópio, uma entre 1839 e 1842 e outra entre 1856 e 1860.

O primeiro conflito foi encerrado em agosto de 1842, com a assinatura do Tratado de Nanquim, no qual a China cedeu Hong Kong para a Inglaterra. A colônia inglesa só foi devolvida à China em 1997, seguindo o acordo assinado. Entretanto, ficou definido que seria mantido “um país e dois sistemas” de governo.

“O sistema comunista que existia na China Continental não se aplicará a Hong Kong até 2047, quando Hong Kong será inteiramente da China”, explica Fausto Godoy, professor de relações internacionais da ESPM (Escola Superior de Propaganda e Marketing).

  • Taiwan

Quando Mao Tse-tung, junto ao Partido Comunista Chinês, assumiu o poder de Pequim em 1949, Chiang Kai-shek, presidente da China naquele momento, se exilou em Taiwan. Por conta disso, os nacionalistas acreditam que Taiwan é a sede do governo chinês. Em contrapartida, Pequim se diz o verdadeiro representante político da China perante o mundo.

Em certo momento, os Estados Unidos passaram a reconhecer a China como governo, e não Taiwan como representante internacional da China. Entretanto, os norte-americanos mantêm o compromisso de proteger Taiwan contra o domínio total do governo de Pequim.

“Até hoje temos dois governos. Poucos países reconhecem Taiwan como um governo independente da China. Desde os anos 1990, quando a China começou a ficar mais forte economicamente, o governo conseguiu convencer os países que reconhecem Taiwan como governo independente a deixar de reconhecê-lo”, explica Alexandre Ratsuo Uehara, professor do programa de pós-graduação em língua, literatura e cultura japonesa da USP (Universidade de São Paulo).

O que está em jogo para as três regiões

Uehara explica que, por um lado, temos Hong Kong e Taiwan que são sociedades mais democráticas e tendem a perder esses valores a partir do momento em que a China assumir o papel de gestor mais direto. Do outro lado, temos a China, país muitas vezes invadido historicamente e que tem receio de novas invasões. Além disso, há outras regiões que também buscam uma certa autonomia.

“Se o governo de Pequim tiver uma concessão muito ampla para Hong Kong ou para Taiwan, isso poderia sinalizar como um sinal de fraqueza, com outras regiões voltando a reivindicar de maneira mais forte essa autonomia”, aponta.

Por que Hong Kong e Taipei participam das Olimpíadas

Nas Olimpíadas, o objetivo é acumular o máximo de medalhas possível —o que gera prestígio internacional. A Grã-Bretanha, por exemplo, junta os países e os competidores sob uma mesma bandeira para gerar mais medalhas no total —diferentemente do que ocorre no futebol.

No caso da China, como existe essa divergência com Taiwan e Hong Kong, eles não competem sob a mesma bandeira. São três comitês olímpicos diferentes.

“Diante dessa meia liberdade que redige Hong Kong, ele pode participar de alguns eventos internacionais como uma entidade autônoma. O mesmo acontece com Taiwan. O COI e outras entidades, como a ONU [Organização das Nações Unidas], reconhecem Taiwan como um caso a ser discutido e então permite e aceita que Taiwan participe dos eventos. Mas o título da participação desses eventos é Chinese Taipei, e não República da China”, explica Godoy.

Isso não significa que a China reconheça Taiwan como um país. “Ela ainda insiste que é uma ilha rebelde, mas, por algumas negociações que já ocorreram entre as entidades internacionais, aceitam essa participação”, completa o professor.

A estreia nas competições

Hong Kong participou pela primeira vez dos Jogos Olímpicos em 1952, como uma colônia inglesa. Após a mudança de controle sobre o território para Pequim, em 1997, a região compete com o nome de “Hong Kong, China” desde os Jogos Olímpicos de Sydney, em 2000.

Já a situação de Taipei (Taiwan) nas Olimpíadas é bem complicada. A República da China (Taiwan ou Taipei) participou pela primeira vez dos Jogos Olímpicos em 1932. A ilha já competiu com diversos nomes e chegou até a boicotar a disputa na tentativa de lutar contra o poder da China e do COI.

Atualmente, a ilha compete pelo nome “Taipei Chinês”, estabelecido em 1979 e aceito em 1981 pelo governo de Taiwan. Um acordo no mesmo ano, chamado de Resolução de Nagoya, permite que os atletas de Taiwan participem internacionalmente em competições esportivas. Contudo, não com seu próprio nome, bandeira ou hino.

Em vez da bandeira vermelha e azul de Taiwan, os atletas devem competir sob a “Plum Blossom Banner”, uma bandeira branca que carrega os anéis olímpicos. Além disso, uma canção tradicional de hasteamento da bandeira é tocada quando os atletas estão no pódio.

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