Bebidas ‘batizadas’ fazem vítimas em boates da Capital

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O uso de drogas para batizar bebidas e até do chamado “boa noite cinderela” tem se tornado comum nas noites de Cuiabá e traz alerta à população. Seja em festas, bares ou boates, em bebidas alcóolicas ou não, cada vez mais pessoas, em especial mulheres, têm sido vítimas desse tipo de crime que coloca em risco a vida.

 

Na Capital, nesta semana, a candidata a Miss Plus Size Cuiabá, Nathalia Viana, 23, tornou público em suas redes sociais sua experiência. Ela contou que estava em uma boate, na última quinta-feira (28), para comemorar seu aniversário, quando foi drogada. Após seu relato, inúmeros comentários de mulheres que passaram por algo semelhante começaram a surgir em seu post.

 

Segundo Nathalia, uma pessoa fez um copo de bebida alcoólica para ela e depois disso não se recorda mais o que aconteceu. Ela acordou em sua casa, no dia seguinte, e viu que chegou lá por meio de um transporte de aplicativo. Relata que já lhe contaram 3 versões do que teria ocorrido. “Tentei lembrar de algo e nada”.

 

Em um comentário no post de Nathalia, uma jovem relata o terror vivido. “Aconteceu comigo, não tive a sorte de sair ilesa, sofri violência sexual e ainda fui culpada por isso. Vou carregar cicatrizes disso para o resto da vida”. G.B.L, 26, precisou de ajuda após ter seu drink “batizado”.

 

Ela conta que chegou a uma festa na casa de um conhecido e se lembra apenas de deixar o primeiro copo que pegou de bebida sobre um balcão para amarrar o cabelo. Após tomar alguns goles da bebida, começou a passar mal e pediu ajuda aos amigos.“Eu fiquei grogue, minha frequência cardíaca baixou, sentia como se tudo estivesse muito longe”.

 

P.F, 24 anos, também foi uma vítima de bebida batizada. Ela conta que ficou totalmente inconsciente até a chegada ao hospital e havia bebido apenas duas doses de caipirinha. “Todos que me conhecem sabe que bebo pouco e sei o momento de parar”. A vítima conta que uma amiga percebeu que seu comportamento começou a mudar rapidamente, a tirou do local e a levou para o hospital. “Fiquei sabendo depois que isso aconteceu com mais pessoas no mesmo lugar que eu e também em outros locais”.

 

Engana-se quem pensa que esse tipo de droga é usada apenas em bebidas com álcool. Há relatos de diversas pessoas também sobre adulteração de bebidas sem a presença, como em sucos e refrigerantes. Em um dos post da internet, uma vítima disse que teve seu refrigerante batizado e que acordou em um hospital toda cheia de hematomas. Ainda segundo o relato, ela foi vítima de uma tentativa de estupro.

 

Sem registros

Muitas vítimas não procuram a polícia para registrar boletim de ocorrência. Entre as dificuldades para denunciar, elas relatam o fato de não se lembrarem de nada do que aconteceu, além da vergonha e do medo de serem julgadas.

 

Uma dessas vítimas lembrou até mesmo do caso da influenciadora Mariana Ferrer, que denunciou ter sido dopada e violentada por um empresário em um beach club. Apesar de vídeos em que aparece se apoiando nas paredes, sem conseguir andar sozinha, prints pedindo socorro a amigas que estavam no local, além da foto do vestido que usava na noite todo ensanguentado, assim como exames que comprovaram o estupro, o empresário foi absolvido.

 

“São muitos os comentários que a gente lê sem noção, nas denuncias de pessoas, que na verdade querem mais é alertar sobre os casos. As vítimas são zombadas, ridicularizadas. As pessoas descreditam os relatos. Enfim, isso tudo acaba influenciando”, diz uma das entrevistadas.

 

Alerta

Delegada Mariell Antonini Dias, da Especializada de Defesa da Mulher, Criança e Idoso de Várzea Grande, explica que não há dados específicos sobre esse tipo de ação uma vez que ela configura o ato preparatório para um crime e não efetivamente o crime. Explica ainda que há uma dificuldade em relação a esse tipo de ação tendo em vista que em diversos casos as vítimas não realizam a denúncia formal.

 

Lembra que mesmo quando não há crime consumado como, por exemplo, um roubo, furto, estupro, assedio, é importante que a vítima faça o boletim de ocorrência para que assim a polícia possa investigar e até mesmo chegar aos autores que, em muitos casos, podem agir em um bando criminoso.

 

Em 3 anos atuando na delegacia, ela lembra que apenas um caso foi registrado por uma vítima. “Ela nos procurou e afirmou que havia saído e sua bebida havia sido batizada o que causou certa desorientação”. Foi aberto inquérito para investigação e solicitado exames de corpo e delito na época.

 

A delegada ressalta os cuidados necessários com a bebida quando se está em um ambiente público, como nunca trocar ou aceitar bebidas de outras pessoas, estar atenta ao preparo e como a bebida solicitada vai chegar até você. “Não aceite balas, chicletes e nada oferecido por outras pessoas”.

 

Ela lembra ainda que manter a máxima “eu cuido de você e você de mim”, saindo sempre com amigos, acompanhada, dificulta a ação de criminosos que buscam sempre a vítima mais fácil.

 

No caso de sair sozinho, evitar levar cartões, preferir sempre dinheiro e ter em mãos apenas um documento pessoal, evitando bolsas e carteiras.

 

Abrasel

A Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) afirmou, por meio de nota, que “repudia esse tipo de comportamento seja onde quer que ocorra”. “Infelizmente, esse tipo de atitude repudiosa não é uma prática nova, há anos vemos casos como esses principalmente em ‘baladas’. É importante evitar deixar o copo destampado ou sair e deixar o copo na mesa, ficar atento e, em caso de desconfiança, comunicar o responsável pelo do estabelecimento”.

 

Fonte: A Gazeta

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