Covid-19 matou mais de 70 pastores e evangelistas em Mato Grosso

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Em Mato Grosso, mais de 70 pastores e evangelistas da igreja evangélica Assembleia de Deus perderam a vida na pandemia da covid-19. Entre os membros de outras religiões não há dados específicos. Independente de números, para o vigário geral da arquidiocese de Cuiabá, padre Deusdédit Monge de Almeida, são quase dois anos de atrofiamento social, cultural e também da vida, pois muitas pessoas ainda carregam a dor que não foi partilhada, porque a situação não permitiu um velório. Nesta terça-feira (30), Mato Grosso chegou a 14.001 mortos pelo novo coronavírus.

 

Desde o início da pandemia e de inúmeros protocolos de medidas de biossegurança, cultos e missas ocorreram com números reduzidos de fiéis. Algumas comunidades realizaram eventos online para coibir a presença nos templos e igrejas. Mesmo assim, religiosos sempre acreditaram no poder da fé contra o vírus.

 

Mas a morte não escolheu classe social, cor ou credo e, com isso, muitos segmentos tiveram que mudar conceitos. Nós evangélicos e membros do corpo de cristo, tratamos a morte com naturalidade, não com frieza, sabendo que é um processo de cumprimento de etapas, de dever, de propósito. No começo foi difícil, tivemos que escorar bastante na palavra de Deus, na presença do Senhor e, para ser bem honesto, ficamos com medo, ressalta o pastor Jercel Marques, da igreja Paz em Tempo de Guerra.

 

Ele conta que perdeu o sogro em março de 2021 e passou a refletir melhor sobre a pandemia. No começo ficamos com a ideia: não, com quem é de Deus não vai acontecer nada! Mas tivemos exemplo de homens de Deus, os primeiros da fé que morreram e, essa ideia de que homens de Deus vão ser protegidos é conversa fiada. Na verdade, os homens de Deus vão ser colocados à prova, eles que são as pessoas que devem assumir a responsabilidade de ir à luta e não se acovardar diante da situação, são eles que dão força a outros que estão começando na fé a lidar com toda a situação.

 

Segundo o pastor, faltou alimento para muitos irmãos e outras pessoas que não são da igreja. Foi realizado um trabalho social em algumas oportunidades porque as mortes trouxeram desesperança às famílias e isso causou também a diminuição no número de fiéis, na igreja, que gerou a suspensão do culto presencial, assim como em todo o Brasil. Tivemos que adaptar para fazer online ou conversando via whatsapp com alguns irmãos. Foi um período que eu espero que seja o último, embora saiba que os dias são maus. Perdemos muitos pastores de várias denominações e eles mesmos perderam familiares, destaca.

 

Entre os líderes religiosos que faleceram em decorrência da covid-19 está o pastor Sebastião Rodrigues de Souza, 89 anos, no dia 8 de julho de 2020. Ele liderou a igreja por quase 50 anos e morreu 5 dias depois do seu filho, também pastor da mesma igreja, Rubens Siro de Souza, 68 anos, vice-presidente da Convenção dos Ministros das Assembleia de Deus (Comademat).

No dia 20 de maio de 2021, uma pastora evangélica morreu em Cuiabá, uma semana após a morte do marido, que também era pastor, ambos em decorrência da covid-19. Elisângela de Souza e José de Souza eram moradores de Comodoro (644 km a Oeste da capital).

 

Entre as últimas vítimas da covid está o pastor Edson Balint, presidente da Assembleia de Deus em Nova Bandeirantes (1.026 Km ao Norte de Cuiabá). Ele estava internado há quase 15 dias na Capital e morreu no domingo (28).

 

Segundo a assessoria da igreja evangélica Assembleia de Deus, os cultos têm atendido aos protocolos de segurança impostos pelos órgãos sanitários de controle da pandemia, assim como as normas de segurança dos decretos municipal e estadual, desde o início da pandemia. Ressalta que a igreja está voltando à normalidade, de forma gradativa.

 

Processo traumático

Conforme o padre Deusdédit Monge, o luto é um momento importante e as pessoas vão elaborando o sofrimento e a dor. Mas, com o grande golpe da pandemia, da forma que ocorreram os velórios dos mortos por covid-19, fica um processo traumático. Ressalta que o velório é importante pelo fato de ser nesse momento onde a família relembra a história de vida, a memória construída e, sem esse momento, a dor deixa de ser partilhada, não pode ser suavizada. As pessoas carregam essa dor, se recolhem, completa.

 

Mesmo diante de tantas mortes e dor, o padre enfatiza que a situação é de aprendizado e muitas lições. Enfatiza que não dá para ser negacionista e não aceitar a vacina. A ciência sem a religião é manca. A religião sem a ciência é cega, completa citando a famosa frase de Albert Einstein.

 

Passaporte da vacina

A epidemiologista e professora do Instituto de Saúde Coletiva da Universidade Federal de Mato Grosso, Lígia Regina de Oliveira, defende o passaporte da vacina em todos os lugares com aglomeração. Ressalta que as medidas de biossegurança servem para qualquer ambiente.

 

Qualquer local com aglomeração e sim, no caso das igrejas, sempre há um número grande e proximidade das pessoas, além de falarem, cantarem, com isso, trocando substâncias que transmitem doenças respiratórias, em especial a covid-19.

Segundo a epidemiologista, as medidas de biossegurança devem ser tomadas nesses ambientes, como o distanciamento social, o uso de máscaras, de álcool em gel e lavagem de mãos. Disse que, infelizmente, alguns lugares flexibilizaram as medidas com muita antecedência. Outra questão para a segurança, segundo Lígia, é a combinação com outras medidas, como o passaporte da vacina.

 

Defende a situação, pela disponibilidade do imunizante. O passaporte ou comprovante de vacinação deve ser exigido nesses ambientes, assim como cinema, teatro, casas de shows, eventos de uma forma em geral, os templos religiosos de qualquer natureza, idealmente, deveriam exigir o comprovante, minimamente com duas doses, ressalta.

 

Enfatiza que não adianta usar uma máscara que não seja apropriada e ficar lá abraçada, se cumprimentando e trocando suores, um ao lado do outro. Claro que as medidas em conjunto fazem mais efeito do que uma única medida isolada. Os templos são uma opção, pode fazer online, diferente do trabalho. São vários fatores envolvidos na transmissão ou não da doença. Não existe diferença entre um ambiente fechado ou aberto. O ideal é frequentar um lugar com menos pessoas, mantendo o menor número, com todos os cuidados, completa.

Fonte: Gazeta Digital

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